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Para começar a minha participação neste espaço, escolhi um texto escrito para uma das edições de «O Zoófilo», jornal da Sociedade protectora dos Animais. Nada melhor do que começar do que com a vida de um dos maiores génios artísticos e científicos da história da Humanidade, Leonardo da Vinci, e de uma das facetas menos conhecidas da sua personalidade: a paixão pelos animais.
Leonardo da Vinci nasceu em Abril de 1452, na pequena cidade de Vinci, nos arredores de Florença a que distava um dia de viagem a cavalo. Passou os seus primeiros anos entre a vida rural e a agitação da cidade, facto que o marcou de forma indelével. A Cittá e Villa. Viver nas grandes cidades, apaixonado pelos motivos do campo, onde passou a infância na companhia, sobretudo dos vários animais existentes na propriedade onde residia.
Leonardo referiu, muitos anos depois, e num período em que estudava o voo das aves com o objectivo de levar o homem a voar – códice “sobre o voo das aves”, de 1505 – que a mais antiga recordação da sua infância foi “que, quando estava no berço, pareceu-me que um milhafre vinha até mim, me abria a boca com a cauda e me batia com ela, por diversas vezes, no interior dos meus lábios”.
O autor de obras-primas universais como a “Ultima ceia de Cristo” ou “Mona Lisa” foi também autor de diversas fábulas, seguindo uma outra das suas frases dedicadas aos animais: “O Homem tem um grande poder da palavra, mas, de uma maneira geral, aquilo que diz é fútil e falso; os animais têm pouco, mas o que dizem é útil e verdadeiro”.
Nas suas fábulas, muitos animais eram referenciados, existindo temas como “um cão que dorme sobre uma velha pele de carneiro, a teia de aranha na vinha ou um melro entre espinheiros”
Vasari, um dos principais historiadores da época, anunciou, num dos seus escritos, a relação de Leonardo da Vinci com os animais: “Leonardo tinha um grande apreço pelos animais, que tratava com grande amor e paciência. Quando, por exemplo, passava em sítios onde se vendiam pássaros, tirava-os muitas vezes das gaiolas com as suas mães e, tendo pago o preço pedido pelo vendedor, deixava-os voar, restituindo-lhes a liberdade perdida”.
Acredita-se que Leonardo sempre teve animais de estimação, sobretudo gatos – objecto de um dos seus últimos desenhos – que eram poderosos aliados para afastar os ratos do seu atelier. A sua admiração pelos cavalos ficou expressa pelas inúmeras ocasiões em que o retratou, estudou e analisou, procurando igualmente “maravilhar o mundo” com a construção, frustrada, do “Cavalo de Sforza”, exemplar gigante em bronze.
O seu único animal de estimação conhecido foi um lagarto – trazido pelo jardineiro do Papa, segundo rezam as crónicas – com asas, cornos e barbas coladas com mercúrio que servia para assustar os seus amigos.
Um deles foi Tommaso Masini que, opinando sobre Leonardo, referiu que “este não matava uma mosca fosse por que razão fosse e preferia roupas de linho para não vestir uma coisa morta”. Sabe-se agora que Leonardo da Vinci tornou-se vegetariano, recusando alimentar-se de animais que – muitos deles – tornaram-se objecto de estudo dos seus trabalhos científicos, dissecando-os e analisando a sua complexa anatomia, mas que, por todos os exemplos anteriores, certamente que tais procedimentos tiveram lugar de acordo com a dignidade e a reverência para com os animais utilizados, num exemplo que, mais de 500 anos depois, não é seguido nas pesquisas médicas e desenvolvimento cientifico.
Figura incontornável da civilização ocidental, Leonardo da Vinci, tem sido, nos últimos anos, regularmente revisitado – seja em filmes, livros ou inspiração para novas criações artísticas – passando de referência nos círculos académicos, a “estrela pop”, símbolo de conhecimento entre a sociedade globalizada. Uma das muitas publicações dedicadas à sua vida é a biografia “Leonardo da Vinci, o voo da mente”, de Charles Nicholl, publicada em Portugal pela Bertrand Editora, de onde foi baseado este texto.
Jorge Vicente
(Jornalista e sócio n.º4 da UPPA) |
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